Photo-series
2019 - Ongoing


A praia era promessa de retorno, território do reconhecível, arquivo das mais belas memórias. Ali tudo parecia permanecer — o brilho do sol, os corpos à mostra, o gosto intangível de pertencer. Durante muito tempo, acreditei nesse lugar como quem acredita num refúgio. Mas, num momento, algo se deslocou. As imagens, antes dóceis, giraram sobre si mesmas. Corpos, gestos, poses, jogos, manobras e desvios, aquilo que eu antes observava sem distinção, passou a se alternar diante de mim como forças em confronto. O que eu chamava de convivência revelou-se campo. Campo de batalha. Percebi então que, quando ocupam o mesmo espaço, os corpos não se misturam. O que minha nostalgia buscava era uma miragem de igualdade. E o meu olhar, um privilégio de classe, branco. Ver nunca é neutro, mas um gesto saturado de crenças. Vemos aquilo em que acreditamos E ver para além chega como um choque, um tapa, um constrangimento. O constrangimento da ignorância. Foi assim que de repente, comecei a ver. E o que vi foi um apartheid. Nos espaços de lazer pequeno-burgueses — isto é, brancos — o lugar dos corpos negros é um lugar suspenso, instável, invisível É o lugar do trabalho ilegal, não assegurado, da sobrevivência. Onde sombras em movimento carregam volumes disformes. Mantas, bolas, brinquedos, óculos escuros, chapéus, biquínis, souvenirs, redes, falsificações de toda ordem — às vezes, comida. Sombras negras que atravessam a areia das praias, mas também as praças, os museus, os cartões-postais. Cenas que se repetem em Salvador, Paris, Roma, Madri, na Grécia, na Sicília.
Corpos sob o sol da cegueira globalizada, desumanizados, presos ao trabalho incessante, desprovidos de direitos. Corpos que podem ser também crianças. No Brasil, são os favelados, os precarizados, os descendentes dos sequestrados da África e escravizados por três séculos. Na Europa, são os que fogem da guerra e da fome, os que atravessam oceanos em embarcações frágeis, os que sobrevivem à travessia: refugiados, solicitantes de asilo, imigrantes ilegais. Este trabalho busca nessas fotografias o apagado e o silenciado. Como sombras — metáfora de sua invisibilidade no capitalismo global.
O título, Blind Waves (ondas cegas), foi retirado ao acaso de um texto do filósofo camaronês Achille Mbembe.
Salvador-BR, 2012;
Paris-FR, 2016, 2024;
Palermo, San Vito lo Capo, IT 2014